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Gustavo Montenegro
É curioso como o único álbum dos Beatles intitulado simplesmente “The Beatles” seja o trabalho menos unificado no que se refere ao conjunto, à união da banda. Embora repleto de canções maravilhosas que renderam um disco duplo, o White Album é o trabalho mais individualista produzido pelos Quatro de Liverpool, onde cada compositor parecia apenas necessitar dos companheiros como meros músicos de acompanhamento e, em alguns casos, nem mesmo isso. Como bem definiu George Harrison, em depoimento registrado para o projeto Anthology nos anos 1990, “havia muito ego naquela banda”, e ninguém queria abrir mão de suas idéias para, talvez, produzir um álbum simples, mais comercial, porém mais uniforme e forte. Para o fã que já conhecia todas as esquinas percorridas com A Hard Day's Night, With The Beatles, Rubber Soul e Revolver, além de uma dúzia de compactos que definiram a cara do pop, ouvir o White Album pela primeira vez causou um impacto sem precedentes, uma estranheza perfeitamente justificável para quem aguardava um sucessor do coeso Sgt Pepper.
Ouvir o Álbum Branco é como passear pelo dial de um rádio, passando por várias estações distintas, onde cada uma toca um estilo musical diferente. Mas como em se tratando de Beatles nada é estranho, a genialidade do quarteto criou um de seus melhores e mais venerados trabalhos. Uma obra que muitas vezes foi descrita como uma “colcha de retalhos”, mas certamente formada com tecidos nobres, muito especiais. O Álbum Branco teve grande parte de suas faixas composta na Índia, no início de 1968, no ashram do Maharishi Mahesh Yogi, guru da meditação transcendental que virou a cabeça de George Harrison. Após quatro anos de um sucesso estrondoso, passando pela difícil decisão de abandonarem as turnês mundiais, o envolvimento crescente com LSD, a criação de Sgt Pepper e a morte de Brian Epstein, os quatro Beatles partiram em busca de paz e autoconhecimento. A comitiva que chegou em Rishkesh contava também com as mulheres de cada um deles, além de amigos ilustres como Mike Love (dos Beach Boys), o cantor Donovan e a atriz Mia Farrow. Foi longe da agitação da Swinging London que John, Paul e George compuseram a trilha sonora da permanência em um ambiente tão bucólico, pacífico e sem drogas. Canções que traduziam o momento pelo qual passavam, que mostravam a individualidade de cada um e os caminhos que seriam traçados dali pra frente, com reflexos que ainda seriam vistos anos após a separação da banda, com os integrantes em suas carreiras-solo. O período em que passaram sob a tutela do Maharishi foi curto, porém muito intenso. Desiludidos com o comportamento dele, questionando suas verdadeiras intenções, os Beatles romperam com o guru em um episódio até hoje mal esclarecido, e voltaram para Londres trazendo em suas bagagens as canções que formariam seu novo disco.
Após a gravação informal de uma série de demos na casa de George Harrison, em Esher, os Beatles entram no Abbey Road Studios e iniciam os trabalhos. É neste momento em que se percebe a desunião do conjunto, com cada compositor centrado em suas próprias canções, apenas atuando como músico de estúdio nas composições dos outros. No meio das gravações, se sentindo cada vez mais excluído, o sempre amigo Ringo Starr entra em depressão e deixa a banda. Mesmo retornando semanas depois e encontrando sua bateria coberta de flores, num gesto de boas vindas, a semente da discórdia já estava plantada e as coisas continuariam assim por toda a gravação. George também se sentia incomodado com o clima das sessões. Numa fase em que crescia como compositor, o guitarrista não queria esperar até que os “chefes” Paul e John pudessem colaborar numa gravação sua, e por isso trouxe o amigo Eric Clapton para tocar em sua primeira obra-prima: While My Guitar Gently Weeps. Clapton, que anos mais tarde se envolveria com a esposa de George, a bela Pattie Boyd, também foi a inspiração para outra grande faixa do disco - Savoy Truffle.
Lennon e McCartney estavam férteis em idéias neste período, embora nunca a assinatura da dupla fosse mais inadequada. Cada um produziu verdadeiras pérolas do repertório beatle, canções que poderiam perfeitamente ser usadas como singles, embora só uma deles tenha eventualmente sido divulgada neste formato - a magistral Hey Jude. A balada de pouco mais de sete minutos representou duas conquistas para a banda: a transgressão do limite de duração para execução radiofônica, quando singles raramente passavam dos 4 minutos, e a inauguração de seu próprio selo, a Apple. Com tantas outras músicas circulando, Hey Jude acabou excluída do White Album. Em seu lugar, um Paul McCartney altamente inspirado contribuiu com canções folk ao violão, (Blackbird e Mother Nature's Son), rock à Beach Boys (Back In The USSR), influências do ska (Ob-La-Di, Ob-La-Da), heavy metal (Helter Skelter), vinhetas (Wild Honey Pie e Can You Take Me Back) e histórias para contar (Honey Pie e Rocky Racoon).
John Lennon, no início de seu relacionamento intenso com Yoko Ono e extremamente influenciado pelas idéias da artista japonesa, produziu a faixa mais inusitada em um disco da banda, a colagem Revolution 9. Também compôs uma de suas mais lindas baladas, a comovente Julia - uma ode à suas musas, a mãe e a então namorada. Sexy Sadie nasceu como um desabafo sobre a desilusão com o Maharishi, e Dear Prudence narra um caso verídico vindo da India. Sempre com um pé na ironia, Lennon zomba daqueles que insistiam em procurar mensagens secretas nas letras dos Beatles em Glass Onion, junta três fragmentos distintos para formar a fantástica Happiness Is A Warm Gun, e mais uma vez tira sarro do Maharishi em Everybody's Got Something To Hide Except Me And My Monkey. Com Yer Blues, John grita seus demônios. Com Cry Baby Cry ele nos encanta com sua simplicidade.
Em 22 de novembro de 1968 o disco foi lançado. Sua capa totalmente branca veio em contraste ao exagero multicolorido do ano anterior, bem representada nas artes de Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band e, nos Estados Unidos, no LP Magical Mystery Tour. “The Beatles” foi mais um campeão de vendas, indo direto para o primeiro lugar e vendendo horrores em todo o mundo. Até hoje é freqüentemente citado em listas de “melhores de todos os tempos” das mais diversas publicações, e é declarado como o disco preferido por grande parte dos fãs da banda. Foi um trabalho polêmico, discutido, analisado, muitas vezes criticado, mas inegavelmente um marco na música popular. No ano seguinte a seu lançamento, disputas envolvendo o controle gerencial da banda geraram graves desavenças entre os integrantes. Influências externas e interesses em projetos distintos levaram os Fab Four pelo tortuoso caminho da separação, mas não sem antes brindarem o mundo com mais três presentes - o desenho animado Yellow Submarine, o polêmico Get Back e outra obra-prima, o irretocável Abbey Road.
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