30 de Janeiro
Carlos Edu ® - (arlã() ®

No ano de 1.969 eu estava com 26 anos e já pertencia ao destacamento da polícia de Londres. Havia apenas uma semana que eu atuava nas ruas depois de um ano no escritório. Para mim, que sempre gostei de ação, serviços burocráticos eram um suplício.

As noites de Londres eram relativamente tranquilas (para mim, que acompanhava todo aquele rebuliço cultural dos anos 60) e a maioria dos chamados era para resolução de assuntos corriqueiros, como bebedeiras indesejáveis ou pequenos conflitos domésticos. Houvera algumas ocorrências de tentativas de assaltos a bancos no final de 1.968, mas eu não estivera nessas diligências.

Naquele 30 de janeiro recebemos um telefonema dizendo que um conjunto musical resolvera tocar, em pleno dia, no telhado de um edifício. Eu estava no destacamento que saiu às ruas e no trajeto fui pedindo aos mais velhos mais informações, sem sucesso. Diziam apenas que uns cabeludos se achavam donos do mundo e pensavam que podiam se comportar da maneira que quisessem. Pensei em primeiro lugar que deveria ser o conjunto Pink Floyd, que fazia performances inusitadas em locais não tão próprios assim, como aquele em março de 1.966 no clube Marquee, num evento de contracultura chamado "Spontaneous Combustion". Fora incrível! Havia também a possibilidade de ser mais um encontro entre Roger Waters, David Gilmour e Syd Barrett, que estavam produzindo o disco novo de Barrett, The Madcap Laughs, já que Barret havia sido expulso do Pink Floyd. Isso tudo me veio à cabeça naquele dia enquando ganhávamos as ruas frias de Londres.

Ao descer do camburão a multidão já estava formada. Era o prédio da Apple! Quando os acordes maravilhosos de "Don't Let Me Down" vieram ao meus ouvidos eu não sabia se continuava com os meus procedimentos ou se procurava um lugar melhor para apreciar uma apresentação ao vivo dos Beatles! Puxa, desde 1.966 aqueles caras não tocavam em público! Porém o férreo regulamento policial britânico fez-me perfilar e acompanhar o comandande Nowmat que já apertava a campanhia da Apple. Alguém abriu a porta e pude ver que Mr. Mal Evans já nos esperava. Ele nos cumprimentou gentilmente, como se estivesse esperando convidados para uma festa, e ouviu do comandante uma avalanche de perguntas sobre o que significava aquilo, se eles não sabiam que aquilo era proibido, se eles não se importavam com os vizinhos, se... se... Mr. Evans, impertubável, disse que se tratava de uma filmagem e o comandante então pediu o alvará de licença que liberava o evento. Claro, não havia alvará.

Mr. Evans fez um sinal para que o acompanhássemos e nessa altura mais quatro policiais se juntavam a nós. Subimos até o telhado. O vento não estava calmo e pude perceber nos rostos de Paul e Lennon uma certa dificuldade em enquadrar o microfone enquanto cantavam "Get Back". Porém estavam com semblantes radiantes, como se estivessem fazendo uma grande travessura. E estavam! O comandante Nowmat e Mr. Evans travaram um conversa totalmente inaudível, que eu não me esforcei nem por um segundo em entender, embriagado com aquela visão e sons fantásticos.

Essa lembrança desenrola-se até hoje na minha mente com a nitidez de um DVD, com o perfume gelado de um dos mais maravilhosos dias londrinos, com o som mais inebriante e puro que um fã já ouviu. Sinto-me um privilegiado.

Nem sei como se desenrolaram os entendimentos de Nowmat e Evans, porém, após mais algumas músicas, o equipamento foi desligado e as pessoas nos prédios ao lado e nas ruas foram calmamente se dispersando (será que elas tinham a idéia do que presenciaram?).

Fiquei praticamente por último e ao descer as escadas senti um puxão na minha manga. Olhei para trás e era o Ringo que me dizia:

"Pô, cara! Achei que você fosse chegar lá e me arrancar da bateria na porrada! Pô, achei que você fosse me dar uma "gravata" e me jogar no chão! Que decepção, cara, que decepção!" Sorri para ele e apenas pude balbuciar ainda emocionado: - "Obrigado, cara, obrigado!"