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Happy Yesterday
Carlos Edu ® - (arlã() ®
Quando eu subi no palco, quase saí correndo pelo outro lado ao notar que o
meu parceiro não estava lá. Medrara, o patife. "Correu de medo, borrou no
dedo, pediu um paninho para limpar o dedo". E eu ali. Sozinho e com cara de
imbecil.
Como cantar "Yesterday" sem o violão para me acompanhar na frente de todo
mundo?
Todos os anos o colégio preparava essas provas duríssimas para a turma de
Canto, disciplina opcional que eu resolvera cursar só para me tornar um
Beatle.
A maioria dos alunos era de meninas e todas elas tinham o cabelinho a la
Rosemary e Lilían. Apenas a Alba Valéria fazia um corte curto e dizia ser a
Rita Pavone. Tive de ser muito macho e agüentar a pressão dos meus colegas
do quarteirão, que cochichavam que eu estava virando bicha. Saco! Era tudo
por causa dos Beatles, pô.
Agora, ali naquele palco, várias outras crianças já haviam se apresentado e
eu e o tratante do Bruno éramos os penúltimos. E ele não viera. Putz-grila!
Olhei para a platéia cheia de pais e de outros parentes menos cotados e
procurei os meus. Cacete! Lá estavam eles: meu pai (não sei como é que ele
foi, pois quando havia festas ou outras comemorações na escola a empresa
dele não "deixava"), minha mãe (que me achava muito mais a cara do Ronnie
Von - que eu odiava - do que a do Paul McCartney, que eu procurava imitar no
jeito dos cabelos, no olhar e tudo mais, sem muito sucesso, diga-se de
passagem), minha irmã (fã do Wanderley Cardoso e apaixonada no George
Harrison) e meu irmãozinho, que não gostava de nada que ele não pudesse
quebrar ou lambrecar de melecas várias. Várias vezes, na casa de primos, eu
dava os discos dos Rolling Stones e de outros "adversários" para ele detonar
e ficava escondido, curtindo a sacanagem. Pena que naquela época ainda não
existiam esses discos de pseudo-pagode...
E o Bruno? Saco! Por onde será que andava aquele alemão batata? Pôxa. Ele me
garantira que não faltaria; e ainda ontem havíamos ensaiado mais uma vez na
garagem lá de casa e tudo tinha corrido bem!
Vi que ele não ia dar as caras mesmo e pensei em desistir, quando sobe no
palco o Júlio, amigo nosso, mas muito mais velho, que caminhou em direção ao
orgão. O Júlio tocava piano na orquestra da cidade e quase nunca nos víamos,
a não ser quando ele aparecia lá em casa pedindo para eu lavar a Vespa dele
em troca de cinco caixinhas de joinha, vinte pacotinhos de figurinhas dos
Perdidos no Espaço e duas garrafas de Crush. Não necessariamente nessas
quantidades ou ordem.
Ele cochichou no meu ouvido dizendo que o Bruno não viria porque uma tia
dele havia quebrado a bacia (só depois de uns 5 anos foi que eu entendi que
não era bacia de lavar roupa e que o Júlio era namorado da irmã do Bruno) e
que eu cantasse como tinha ensaiado, que ele faria o resto. Agora quem
começava a se borrar era eu. Orgão? Minha mamãezinha...
Olhei mais uma vez para o meu pai, que estava novamente olhando o relógio,
fechei os olhos e - dane-se - mandei:
- Yesterday...
Antes de pronunciar a próxima palavra, ouvi aquele som maravilhoso e
característico de um orgão bem tocado invadir os meus ouvidos e até ao final
da música uma grande calma e confiança conduziram-me como mãos de fada por
toda a canção. Quando terminei, depois dos característicos e ternos hum humm
hum hum hum hum hummmm, todos já aplaudiam. De pé! Putz!
Olhei para o Júlio e ele estava sorrindo e balançando a cabeça em aprovação.
Lá na audiência os meus velhos me acenavam entre palmas e gritos, a minha
irmã olhava para uma amiga e apontava para mim e o meu irmãozinho devia
estar perdido nalgum lugar do salão.
Naquele ano, no Natal, ganhei os Lp's Rubber Soul, Sgt. Peppers e o Let It
Be, que nunca cansei de ouvir. Hoje, transformados em CD's, eles fazem parte
do acervo jovem e antenado dos meus filhos.
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