O Nariz

Carlos Edu ®

Nenhum daqueles narizes cônicos o agradava. Praguejou alguma coisa sobre a moda atual e saiu da loja visivelmente chateado. Queria um nariz aquilino, de impacto imediato quando visto de perfil. Não, não estavam mais sendo fabricados, modelos ultrapassados. Entrou no carro sem prestar atenção num mendigo siliconizado que vomitava na calçada e empreendeu velocidade supersônica pela rodovia área iluminada.

O despertador arrancou-o da cama às sete horas ao som de um samba lacônico que lembrava a Nova-Iguaçu da sua juventude. Tentou precisar o ano desse antigo sucesso e surpreendeu-se com a própria idade.

Nova-Iguaçu... Nem existia mais, porra! Jogou o travesseiro sonoro para o alto e descambou para o banheiro, sentindo que outra parte do seu nariz ficava nas cobertas elétricas e ainda mornas.

Tinha sido um golpe e tanto. Com vários anos de serviços prestados à corporação de policiais especiais, nunca havia sido vítima de ataques de adolescentes andróginos, que se intensificavam a cada dia. Era verdade que a probabilidade de tal risco aumentava consideravelmente e poderia se repetir, mas, ao invés de se preocupar com o fato, deu graças aos céus por estar ainda vivo.

Carregou a pistola no energético atômico enquanto se barbeava, tomando cuidado para não perder de vez o restante do nariz que pendia irremediavelmente. Preparou a máquina de textos e ditou uma carta de repúdio a essas companhias de cirurgias plásticas modernistas.

O chefe de seção o repreendeu por não estar usando um tapa-nariz e citou normas de elegância mínima entre os seus comandados sem, no entanto, deixar transparecer que estava satisfeito com o seu trabalho.

Disfarçadamente foi-lhe passado o endereço de uma clínica afastada, clandestina, que revertia parte de seus escusos lucros para as festinhas dos generais aposentados e, como ainda estava cedo e a cidade iniciava o dia com menos assaltos e ataques terroristas diversos do que ontem, saiu a sua procura.

A sala era escura, apesar do dia causticante lá fora, e após apresentar sua insígnia especial em forma de cartão magnético indestrutível, ouviu uma voz metálica, típica de megafones utilizados em músicas rudimentares, convidar-lhe para sentar-se nas almofadas brancas de polipropileno mole.

Foi oferecida, para sua escolha imediata, uma infindável seleção de imagens holográficas de narizes humanos: brancos, arredondados, achatados, amarelos, negros, alguns com verrugas na ponta (em liquidação), mas aquilinos, nenhum.

Desfez-se das cintas que o prendiam à almofada tecnomorfa, pois se escolhesse algum a operação seria imediata, e ao solicitar a abertura da porta do consultório deu de cara com o médico presidente da casa. Que nariz! Que perfil! Algo incontrolável apoderou-se dele, acostumado a agir intempestivamente em situações de extrema necessidade, e arrancou de uma vez com o seu estilete-laser o nariz que tanto procurava.

Não ficou muito preocupado ao ser condenado a quatro meses de prisão em Júpiter, com trabalhos forçados. Duro foi ter que viver o resto dos seus dias com um nariz idêntico ao de um tal Richard Starkey, inapelavelmente imposto pela Corte Marcial.