
|

|
A Máquina da Paz
Carlos Edu ®
(sobre argumento e colaboração de Alexandre Freitas de Andrade)
Alex Drad chegou um pouco antes. Sabia exatamente o horário e o local, mas estava com receio de não reconhecer o perturbado rosto a tempo. Mas foi fácil. Para quem sabia o que iria acontecer, aquele semblante era obtuso demais para passar despercebido. Não teve dúvidas, lá estava ele, com o Double Fantasy nas mãos. Quem olhasse para aquele sujeito tão comum, e muitos o fizeram, não desconfiaria da grande besteira que ele estava por fazer.
Sem se deixar notar, Alex se posicionou de forma estratégica, bem em frente ao Dakota. Quando John saltou da limousine, ele quase não conseguiu sair do lugar. Era emocionante demais ver o ídolo ali tão de perto e exalando tamanha serenidade, característica dos que se sabem grandes.
Quando o idiota se aproximou de John, foi simples prever seus movimentos. Alex ainda deixou que ele tivesse tempo de pegar o autógrafo – seria bom, talvez lhe ajudasse a perceber novos valores. À menção de sacar, Alex simplesmente tomou sua arma. O pretenso assassino não esboçou reação, pois os covardes quando são desmascarados só sabem fugir. E foi o que ele fez. Aquela figura patética e anônima continuaria a sê-la para sempre.
John ainda tentou perguntar:
- Êi, como é que você sabia? - Mas Alex não teve tempo de responder. Foi se desmaterializando ali na frente de um estupefato John, lembrando no último momento que não tivera tempo sequer de pedir um autógrafo, ou de dar um grande abraço naquele cara incrível.
Quando, no começo de 2004, Big Charles convidou Alex para essa missão, ele mostrou-se meio que incrédulo, mas não duvidou totalmente, pois sabia dos graus de acertos dos empreendimentos daquele maluco apaixonado por tudo que se relacionava com os Beatles. Big Charles, ao som de Dear Prudence, mostrou a máquina de materialização no tempo como uma criança mostra um brinquedo novo: seus olhos brilhavam, ao mesmo tempo em que balançava o chaveiro em forma de maçã na frente de um catatônico Alex.
Nove de dezembro de 1980. John acorda com uma sensação esquisita. Como se estivesse ali, porém o seu lugar fosse outro. De imediato teve um rompante de ligar para Paul e o fez:
- Paul, aqui é o John. Não vou me explicar muito, mas aconteceu algo muito estranho e, por algum motivo, eu sei que precisamos voltar a compor. Hoje! Ligue para o George e ache o narigudo urgentemente!
Diante do silêncio carregado de Paul, John não recorreu a palavras, apenas emendou:
- Estou indo para aí!
E sequer ouviu Paul balbuciar:
- Ok... -, sem saber ao certo se ainda estava sonhando.
As novas músicas do grupo tinham uma aura que não se explicava. John, Paul e George estavam afiadíssimos nas suas colocações de amor, paz e compreensão. Ringo se mostrava perfeito na percussão e capitaneava as relações com a imprensa, governos, entidades e instituições financeiras, com o seu jeitão meigo e sincero. Eles estavam de volta e continuavam a influenciar milhões! De repente o planeta todo começou a pensar junto. Tal era a energia das mensagens que os Beatles criaram, em 1985, a ONG Give Peace A Chance. Através dela, com shows e ações humanitárias pelo mundo inteiro, um novo caminho para o entendimento entre os povos foi criado. Descobriu-se que não havia lugar para tantas guerras.
Quando em 1991 o Iraque invadiu o Kuwait, o presidente americano George Bush cogitou intervir militarmente. O mundo desabou na sua cabeça. Percebendo então que não havia mais espaço para ações de violência contra violência, o presidente americano solicitou à ONU e à ONG GPC que criassem estratégias para lidar com a crise do Golfo. Deste ato, bilhões de dólares que estavam destinados à indústria bélica foram utilizados para financiar a implantação de estruturas de educação, saúde e segurança nos países islâmicos e em outros países do Terceiro Mundo. Os ditadores, que mantinham seu poder através da pobreza e ignorância de seus povos, foram perdendo a força. O respeito às religiões, deu lugar a uma fé pacífica, sem extremismos ou ódio.
Onze de setembro de 2001. Onze horas da noite. John e Paul, sozinhos na sede da ONG GPC nos dois últimos andares do W. T. C., desligam a conferência eletrônica com George, que estava no Ceilão, e com Ringo, que participava de um evento sobre a paz na Suíça, e abrem uma garrafa de vinho. Conversam animadamente sobre os planos de realização de um grande concerto anual em comemoração às grandes conquistas dos povos, que amadurecem dia após dia no respeito entre países, raças e credos. Neste exato momento recebem um telefonema do presidente George W Bush, que os parabeniza pelas ações na América do Sul. O presidente, eles relembram, tinha sido eleito através de uma campanha bancada pela indústria de células de hidrogênio, matriz energética que estava rapidamente substituindo o petróleo, e pelas fabricantes de materiais para educação, que eram distribuídos para todo mundo pela ONU. Sob o efeito da segunda garrafa, eles acabam por compor mais uma obra prima, apesar do tema árido, sobre o discurso veemente de W. Bush em defesa do Protocolo de Kyoto: “The Sky Is Really Blue”.
Onze de Março de 2004. A cidade de Madri estava linda. Iluminada, irradiava uma energia que conseguia atingir até quem estava vendo através da televisão. No concerto anual da paz, John e Paul cantavam “Imagine”, acompanhados de um coro com 1 milhão de vozes. Havíamos finalmente encontrado uma forma de viver em paz.
Alex e Big Charles, vendo o show num telão na praia de Copacabana, tomavam um chopp geladíssimo e brindavam o dia em que destruíram a máquina. Não iriam precisar mais dela.
|
|